Entre sabores e amores.

domingo, agosto 09, 2015


     Com tantos clientes entrando e saindo do café, concentrar-se nas pessoas que atendia era insignificante para a morenas do caixa. Passava os olhos pelo cliente, cobrava o cliente, pegava o dinheiro, devolvia o troco e sorria, dizendo um "volte sempre". Durante o verão, esta era a sua rotina. E nunca reclamava do seu emprego, por mais incrível que possa parecer. Era um lugar calmo, com colegas de trabalho bem humorados e pessoas interessantes para observar quando o café não estava tão lotado. Um desses clientes era o homem de gravata borboleta que frequentava o café às segundas, terças e sextas à tarde, por sorte os horários e dias que o local estava vazio comparado ao resto do tempo. Sentava numa mesa virada para a bela rua e ficava lendo o jornal enquanto tomava seu café.
     Alguma coisa naquele homem prendia a atenção da caixa, agora o motivo disso não era muito claro. Ele não era misterioso, parecia apenas mais um americano apreciando seu horário de almoço. Também não era algum tipo de modelo, apesar da aparência agradável, não era extraordinário. Tampouco era familiar com seu cavanhaque bem aparado e sua gravata que chegava a ser cômica. Mesmo assim, não se importaria em passar horas espiando entre moedas e clientes.
     Toda vez que atendia o tal, era o mais gentil possível, fazendo questão de mostrar seu melhor sorriso e colocar em prática toda norma de etiqueta que conseguia se lembrar. Por ter vindos de uma família sem bens, digamos que não conhecia muito bem esse mundo de palavras e gestos calculados. Sua impressão era de que ele apreciava sua cortesia, mas não se importava muito, então sempre tentava se superar cada vez mais para que o homem voltasse ao café no dia seguinte.
     Ninguém poderia dizer que não gostava de rotina. Dizem que pessoas com rotinas caóticas procuram sempre algum tipo de calmaria. Trabalhava segunda a segunda, em casa ou no escritório, sempre com um projeto novo ou alguma equipe para supervisionar. Com toda a correria do trabalho, tentava fazer com que seu horário de almoço fosse sagrado. Nada de ligações, nada de preocupações, nada além do seu bom café e da calma vista que encontrara a alguns quarteirões do escritório. Três vezes por semana, na mesma mesa, com o mesmo pedido. E toda essas manias faziam-lhe muito bem ou pelo menos é disso que tentava se convencer. Ignorava o fato que a melhor parte daquilo tudo era ser atendido pela caixa baixinha e sorridente. Assim que não podia mais ficar no café, com uma força invisível o chamando para voltar ao trabalho, ia direto para o caixa encontrar a pessoa mais feliz que conseguia se lembrar. Não lembrava de um momento que aquela moça não sorrisse para todos como se soubesse o bem que seu sorriso causava. Toda sua simpatia foi o que lhe atraiu ao mesmo lugar sempre que podia e cada vez mais precisava ver aqueles mesmos olhinhos sorridentes. 

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