Hoje não.
sexta-feira, junho 13, 2014- Alice! Você não pode fazer isso comigo assim, cara... Você 'tá se precipitando. Conversa comigo? Por favor?
O único som ouvido foi o do vento batendo contra as árvores ali perto, mas nada do que o garoto ansiava. Ele olhou em volta e começou a gritar.
- Nem tem pedras aqui p'ra eu atirar na sua janela. Aliiiiiiiice! 'Ta frio aqui! Por favor, fala comigo!
A porta do quarto dela se abriu e ela finalmente foi para varanda. Encostou os cotovelos na proteção, não afastando os cabelos que lhe vinham ao rosto.
- Alice. Graças a Deus. Desce aqui.
- Não. Vai embora. E deixa de ser uma menininha chorona, Gustavo.
- Ir embora? Você terminou comigo por SMS, cara. Não podia nem ter me ligado? - o garoto sentia certa vergonha da própria voz, que soava como se estivesse prestes a chorar.
- Não, espera, terminar o quê? - desdenhou ela com uma risada irônica. - Beijei você umas vezes e você considerou isso como se a gente estivesse casado ou sei lá?
- A gente pode, podia não estar namorando, mas que tinha alguma coisa... Tinha. Você vai ser a pior mentirosa do mundo se negar isso. Ou p'ra você o fato da gente passar noites acordados só conversando, os momentos que te falava uma coisa bonitinha sem prestar atenção e isso da minha mão dar um jeito de sempre ir parar na sua não significaram nada? Tinha alguma coisa. Tem alguma coisa.
Esperou que isso tivesse a quebrado ao meio ou pelo menos a deixado sem reação por algum tempo, mas a resposta veio rapidamente em uma voz fria e calculada, o que fez parecer que aquilo tinha sido ensaiado.
- Não 'to dizendo que a gente não teve nada, mas também não é como se tivesse alguma coisa. Mas esse é o problema. Não vou continuar tendo uma meia-coisa com você. Não é o suficiente pra mim. Noites conversando, beijinhos e mais bobas no corredor do colégio, você sendo conquistador? Eu gosto, até demais, mas não é o bastante.
- Você é suficiente pra você, Alice. Nenhum cara pode melhorar isso. Nem eu. Qualquer um que estivesse contigo seria só um acessório. Olha, não quero ser sua vida, só quero fazer parte dela... Não quero que seu mundo gire ao meu redor, só quero fazer o giro dele mais feliz. Por favor?
- Desculpa, Gustavo, a gente nunca deveria ter começado com isso.
- Não diz isso...
Ela se virou e ia entrando, mas parou com a mão na porta. Sem olhar para trás, declarou em uma voz um pouco mais baixa:
- Não vou ficar aqui discutindo com você uma relação que nem sequer existe e, mesmo que existisse, não levaria a nada.
E foi. O garoto queria pensar em algo inteligente, bonito ou até mesmo engraçado para falar, mas só ficou parado encarando seus próprios tênis durante uns três minutos, com um nó do tamanho do mundo na garganta e se sentindo uma criança mimada que não ganha o que quer e que descobre que nem todo mundo faz suas vontades. Mas voltou a falar, apesar de se sentir metade derrotado e metade imbecil, com a voz saindo falha desta vez, ignorando as pequenas lágrimas que começavam a brotar no seu rosto.
- Sei que talvez você nem esteja mais me ouvindo... Acho que já der ter voltado pr'o seu IPod e seu gosto musical que eu adoro. Mas eu também sei que quando você me fala essas coisas, você quer dizer isso mesmo. Você só tem um jeito diferente de lidar com o que te assusta... Tem gente que chora, tem gente que se corta, mas você desconta nos outros e fala coisas cruéis. Não sei se você quer que eu vá atrás de ti ou se quer que eu te deixem em paz sem questionar, mas essa noite eu simplesmente me recuso a perder meu sono imaginando que poderia ter sido diferente se eu tivesse te falado. É que, sei lá, eu sei que gostar de alguém da um medo filho da puta. Mas eu sei que não 'to disposto a deixar que meu medo seja maior que minha vontade... De você. Amigos, família, futuro... Tudo isso dá pra esperar. Mas passa a madrugada comigo, por favor? 'Tá frio, e isso aumenta ainda mais sentimentos ruins. Me chuta amanhã?
Um minuto, dois... Que pareceram horas. Mas nada. Ele desabou na calçada, colocando os braços sobre os joelhos e enterrando seu rosto nos braços. O estado que se encontrava não deixava qu as lágrimas caíssem, então apenas fechou os olhos fortemente.
- Que droga, Alice - murmurou baixinho, encolhendo-se o máximo que podia.
Então ouviu o barulho familiar da porta da frente sendo destrancada.



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